domingo, 11 de novembro de 2007

Último Café do ano


Terça próxima, 13 de novembro, 19 horas. Nem sob ameaça de guerra nuclear percam o último Café Literário que o Sesc promove em 2007. Ninguém menos que Reinaldo Santos Neves e Fernando Achiamé, com mediação deste belo (é, tem gente que acha) escriba que vos fala, vai estar lá, no palco no Centro Cultural Majestic.

A humildade deveria me impedir de dizer que é imperdível. Deveria...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Resposta para a Paula Fiorotti 1

A Paula Fiorotti, que tem um blog cor de rosa ali na esquina (http://poesiaeexpressao.blogspot.com/), escreveu há um tempão, sem espaço entre a pontuação e a letra seguinte (uma característica muito interessante), como se assim pudesse economizar tempo para pôr mais coisas na tela, o seguinte:

"Olá Miguel,
Tudo bem?Gostaria apenas de fazer uma breve análise de seu livro "Os mortos estão no living" com o intuito de saber o porquê dessa temática.Sua obra explora a morte,que é um assunto polêmico,pois nada se sabe sobre ela,ou quando se sabe,é omitido.Você escolheu abordar esse assunto por ele ser encarado na sociedade atual como algo enigmático e misterioso?Porque somente quem leu seu livro, sabe o quanto isso é verdadeiro e presente nos seus contos.São belas narrativas carregadas de aliterações e sinestesias e dentro de tudo isso,percebemos(nós,leitores) que a morte é sim,uma forma de descrever diversos eventos que não se fundem,como é a proposta do seu livro.São textos independentes,sem personificação e você ainda consegue,maravilhosamente bem,concretizar algo tão abstrato em nossas mentes,alguns devaneios,certas loucuras,diria assim.Em se tratanto de tanta peculiaridade,foi esse "mistério" ao redor da morte que o fez escrever o livro?Interesso-me em saber porque, é fascinante o modo com o qual não moralizou sua obra,mesmo tendo uma temática tão pouco "bem explorada".Ainda curiosa,gostaria de saber se o termo "living" seria a justificativa para mostrar que os mortos estão em nosso meio,por toda a parte,sempre presentes?Um abraço."


• • • Vai daí que:

Paula, pra começo de conversa, discordo um pouco de vc quanto a achar que a morte é uma temática “tão pouco ‘bem explorada’”. Acho que a morte é um dos temas mais recorrentes da vida – e aqui incluo a Bíblia, Shakespeare, Dante, Woody Allen, Rembrandt, Verdi... enfim, parece que todo mundo já escreveu, pintou, compôs ou deu algum pitaco sobre a morte (veja, entre outros, um filme chamado Os últimos passos de um homem). O chato é que, sobre esse assunto, todo mundo tem razão, uma vez que, da morte, a única certeza é que ela chega, mais cedo ou mais tarde (no meu caso, quanto mais tarde melhor).

Em Os mortos estão no living (acho que já disse isso em algum lugar neste blog), eu não moralizo nem trato o tema da morte como algo enigmático, porque acho a morte muito simples: num dado momento, os processos que mantêm seu corpo funcionando param e vc já era. Até onde sabemos, nenhuma outra espécie pensa sobre a finitude da existência. Nosso problema é exatamente este: tentar entender que não vamos durar para sempre e aceitar que a maioria de nós, daqui a cem anos, se tanto, estará absolutamente morta e esquecida. Nós não conseguimos, me parece, lidar com a idéia de um mundo sem a nossa presença.

[Continuo depois. São 2h50 de quinta-feira e Morfeu acaba de me dar um abraço. Impossível não aceitar.]

Quatro assassinatos (quase) sem motivos

1. Tinha um leve defeito verde no olho anil. Desanimado pelo ar frio e impassível da manha, espremeu o passo e desapareceu numa viela mal disfarçada no sem-cor da paisagem. Edifícios brotaram subitamente de uma lacuna qualquer em direção ao céu que se descortinava. Não obstante o belo espetáculo de fototropismo, ele continuou julgando o ambiente enfadonho, quando tomou o elevador. Já no apartamento, abriu a janela da sala e, observando os néons em estado de desaparecimento, enforcou-se com os fios do toca-discos.


2. O sol fugiu por uma fresta do horizonte e incendiou os cabelos da mulher parada diante da indecisão de ficar mais um pouco ou ir dormir. O homem passou por ela e deixou no ar possibilidades tardias de sexo. Seguiu-o, a madrugada ainda estava prenhe de intenções. Não falaram nada, nem era preciso. Mas, apenas entraram no quarto minúsculo de um hotelzinho da periferia, ele a matou. Em seguida, violentou-a, limpou a consciência na toalha imunda do banheiro idem, trancou a porta e nunca mais foi visto.


3. A lágrima surgiu, espessa, junto com a claridade matutina. A noite havia sido de ouvir estrelas distantes com olhos de astrônomo e de tentar contato com astronautas extra-humanos, uma fuga. Fracassara de novo, por isso, frustrado, devolveu a imaginação ao seu lugar no bolso do pijama, dando, enfim, pelo cansaço. No banheiro, mijou toda sua ruína interior na pia. Foi quando a mulher logrou libertar-se de seu sono milenar e perguntou-lhe as horas com voz e gestos de múmia. Respondeu qualquer coisa intangível ao raciocínio, enfiou a cara na privada e vomitou. A mulher levantou-se pensando com o estômago, implorou ao espelho que a recompusesse para o dia em gestação e nunca soube explicar por que foi assassinada pelo marido. Então, ele a deixou caída no tapete e voltou para o vômito interrompido.


4. Etc.

A resposta grandona para a Naiara

Meio escondida lá em “O domínio”, a Naiara escreveu: “Sou uma "fã" desse livro, já que ao lê-lo, minha imaginação foi despertada de um sono mto profundo...
É dificil, dentre os 31 contos, escolher o meu preferido. Porém, acho que o meu preferido é esse: O Domínio.Todas as vezes que estou dentro de um ônibus e vejo alguém tirando um cochilo, eu me recordo do conto e começo a lembrar de cada pedacinho do conto...e isso é um relaxamento e tanto!
Mas...ao ler esse conto, fiquei com uma dúvida na minha cabecinha... Vc termina (ou nem termina!)o conto com um "que":"ninguém acredita que"
Isso me deixou mto curiosa...e não só a mim, como a mtos amigos que tbm se fascinaram com o seu livro.
Agora me responda Marvila: O que vc qria com isso? Qual foi o seu objetivo com esse "que"?
Parabéns pela obra!”

Então... aí eu respondi um monte de coisas e o Blogger deu pau e perdi tudo. Só agora, depois de enrolar um tempão é que pude voltar aqui, pra cumprir minha promessa de dizer algo a respeito.

• • •

É o seguinte, Naiara: vc nunca se pegou caindo no sono no meio de um pensamento? Pois é: a mulher está ali, ao lado do narrador (o narrador é quem, a duras penas, tem a palavra), e ele, encantado... Até que pára de resistir a ela e se entrega, antes de completar a frase (o sono aí é, talvez, uma metáfora para certas paixões que tomam conta da gente quando a gente está mais distraído). O Drummond, num poema maravilhoso (um dos meus favoritos, aliás), “Caso pluvioso”, fala dessa mesma paixão avassaladora e incontrolável:


A chuva me irritava, até que um dia,

descobri que maria é que chovia.


A chuva era maria, e cada pingo

de maria ensopava o meu domingo.


E por aí vai. Ela aumenta de volume, chove sem parar, obrigando o poeta a criar neologismos para sintetizar o que sente (“chuvadeira Maria, chuvadonha, / chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha”) e engolfando o mundo todo. Até que, ao final, “anti-petendam cânticos”,


Os navios soçobram. Continentes

já submergem com todos os viventes,


e maria chovendo. Eis que a essa altura,

delida e fluida a humana enfibratura,


e a Terra não sofrendo tal chuvência,

comoveu-se a Divina Providência,


e Deus, piedoso e enérgico, bradou:

Não chove mais, maria! — e ela parou.


Acho que escrevi “O domínio” sob a influência dessa idéia de paixão: algo tão avassalador e indomável que sai levando tudo de roldão. Pelo menos essa me parece a paixão que vale a pena. Aquela em que a gente “mergulha de cabeça torcendo para o fundo não chegar”, como diz o Selton Mello para a Débora Fallabela, em Lisbela e o prisioneiro (parabéns pra quem viu). Parece, infelizmente, que já não se fazem paixões assim, tudo tem de ser justificado, pesado, medido, raciocinado... mas o bom é quando nos deixamos levar, não fazemos perguntas, não queremos saber por quê... O bom é quando a gente ou percebe de súbito que “maria é que chovia” ou adormece antes de saber o que estava para pensar.

Para Mary Kiedis

Lá em "Casamento", a Mary Kiedis diz: "Posso estar enganada, mas o provavel é que o vest ufes cobre uma análise geral dos contos, algo sobre o estilo de narração, etc." e fulmina: "o que você acha?"

Menina, eu achar alguma coisa não vai adiantar muito pra vc, porque vá a gente saber o que passa na cabeça da banca de Literatura do VestUfes. Uns três anos atrás, pra vc ter uma idéia, caiu um poema meu ("Químicas") no vestibular. Fizeram quatro questões com ele: três de Literatura e uma de... Química. Acertei a de Química e mais duas, hehe... Portanto, não sou fonte muito confiável nesse quesito. Mas vc diz que leu o livro. Creio que isso baste para vc dar conta de uma prova — mas espero que tenha ajudado vc a se interessar mais ainda por Literatura.

Boa sorte, moça.

PS: Mary, já ia esquecendo de dizer: vc foi a primeira pessoa que percebeu — e comentou sobre — o "clima psicodélico do livro". Eu achava que ninguém havia se tocado com isso. E é uma característica importante do livro, junto com o clima de farsa, o niilismo, a sensualidade (às vezes meio bruta), o romantismo, o realismo fantástico, o erotismo...

sábado, 13 de outubro de 2007

Aviso aos navegantes

1) O Blogger não permite editoração fora dos padrões que, por alguma razão, ele acha únicos. Assim, certos recursos literários que a gente utiliza para criar alguns "efeitos especiais", na verdade, acabam dando a impressão de que a gente é idiota. Exemplo: no sétimo parágrafo, a palavra "transparente" vai se tornando transparente, pelo desaparecimento gradual dos fonemas, até existir apenas o espaço em branco entre as vírgulas... O PageMaker e até o Word (o Word!) fazem isso com um pé nas costas. Agora vejam o que o Blogger fez. Dêem um desconto pra essa porqueira aí...

2) Eu só vou fazer comentário agora a partir de perguntas e comentários de vcs. Senão fica parecendo leitura dirigida. Se vcs não perguntarem ou comentarem nada, eu fico aqui, quieto no meu canto.

Nessa noite, o trem atrasou

Todas as noites, o trem passava, desesperado, gritando as onze horas, e eu estava à janela, pensando devagar para não acordar os fantasmas da casa. Eva, absorta e tênue, acomodava-se melhor no sofá a cada vagão, até adormecer. O matraquear constante do relógio impregnava nas paredes nuanças de senilidade, uma senilidade branca, lustrosa, como nosso pasmo cotidiano.

Quando o trem findava de passar, era meia-noite e o seu desespero, como sempre, acabava fazendo parte de nossa própria fisionomia. Então, Eva se levantava, arrastando pesadamente os sonhos, deixava que uma lágrima, talvez de desejos não satisfeitos, talvez de premonição, lhe quebrasse a inércia do rosto e ia dormir no quarto dos fantasmas, sem dizer palavra.

Fora assim desde o princípio, mas, certa noite, percebi que alguma coisa pesada iria desabar sobre nós, porque o trem atrasou. O silêncio das onze horas, onde haveria seu grito inaugural, não-soou como uma explosão. Eva mexeu-se, inquieta e lúcida, no sofá, buscando uma posição que, pela primeira vez, nunca mais encontrou. Acabou ficando mesmo na vertical, murcha, o tempo enjaulado nela rastejando, pegajoso, sobre seu corpo, enquanto a lua deixava transparecer sua lividez sem ser interrompida pelos vagões do trem.

Eu estava entregue ao meu hábito de ficar à janela, mas podia sentir que algo havia mudado. Sabia que Eva, mais que qualquer um, agora fazia parte do relógio, integrando-se ao limbo das paredes. Do mesmo modo, sem precisar vê-la, eu não precisava ouvi-los para saber que conversavam como velhos amigos, ela e os fantasmas. Eles também haviam notado a diferença ocasional do silêncio e desceram para se convencer de que, de fato, existíamos e co-habitávamos pacificamente a casa que pertencera aos seus ancestrais desde idos tão remotos que mesmo a memória infalível dos fantasmas hesitava em afirmá-los categoricamente.

Durante toda a vida, eles tinham-se abstido da sala, limitando seus movimentos ao pretérito dos quartos e do sótão, mantidos lá por sua determinação de não misturar duas épocas distintas, a deles e a nossa, a fim de que pudessem ser preservados intactos os pensamentos e as emoções peculiares de cada geração que ocupasse a casa.

Nessa noite particular, porém, não havia um tempo definido, já que o trem atrasou, e fazíamos todos parte de uma mesma era, sem delimitações. Foi assim que eles se aventuraram ao desconhecido da nossa atmosfera e, grudando suas ventosas no corpo de Eva, ofereceram-lhe compulsoriamente um outro nível de vínculo com a realidade.

As coisas conhecidas, assim, ficaram diferentes, permanecendo iguais. Em determinado instante, notei que o relógio morrera completamente, embora ressuscitasse de imediato. Foi muito rápido, esse lapso temporal, mas, na pequena fração de segundo durante a qual a vida ficou latente, Eva se levantou, os fantasmas em volta, feito crianças na hora do recreio, e sobrevoou a sala (não continuava murcha. Pelo contrário, brilhava muito e parecia feliz como nunca), até que foi se tornando transparente, tr ns ar nt , t n a n , t , , e obrigou minhas retinas a abdicar de sua presença. Eu já não me espantava com nada, como se previamente advertido desses acontecimentos inusitados (porque, nessa noite, o trem atrasou). No entanto, tomou-me uma profunda sensatez de medo. O ambiente se tornara tão sutil sem a presença de Eva que ficou difícil encontrar os objetos em seus lugares. Quase podia enxergar-se o silêncio palpitante de cada coisa. Era isso que me assustava. Eu não estava preparado para conviver sem companhia humana com fosse lá o que fosse tão gigantesco e inabalável em suas possibilidades.

Nervosamente, comecei a rabiscar a quietude com uma canção antiga, mesmo sabendo que não ia conquistar o vazio, e Eva foi reaparecendo no sofá, impávida, de novo enrugada, como se nunca tivesse saído de lá.

Se pudesse prever o instante em que ela cairia do sofá, talvez eu pudesse também ter evitado o terror que se seguiu. Mas não. Distraído, com meu assombro interior, não fui capaz de perceber a real extensão do fato de sua cabeça haver-se partido de encontro ao soalho, a não ser muito depois, quando o veneno dos escorpiões começou a circular pelo meu sangue e tudo foi ficando escuro.

Eva estava, indiferente, jogada no chão, e já não tinha lábios, nem olhar, nem nariz, porque os aracnídeos que abandonavam às dezenas seu crânio rachado haviam devorado quase toda a sua carne e ela, agora, era só ossos, exceto pelo sexo, que eles desfiavam laboriosamente, fibra por fibra, como se toda a vida tivessem sido treinados para isso, para decompor seus átomos.

Pouco depois, numa nuvem negra, eles destruíam os móveis (alguns chegavam a brigar com suas próprias imagens nos espelhos pela ocupação do mesmo espaço) e, caminhando sobre a substância da minha aflição, escalavam meu corpo e me atacavam, vorazes.

A essa altura, inerme, eu suava tanto que alguns deles escorregavam pela minha pele. Mesmo assim, não desistiam de cravar-me seus aguilhões, disputando, cada vez mais ferozes, todo centímetro, toda glândula de um mim que já nem ouvia a dor e apenas fechava os olhos e deixava me arrancarem os pedaços, me levarem sabe Deus para onde.

De repente, não havia nem a sala, nem Eva, nem medo, nem Deus, nem nada, só os escorpiões. E eu queria que acabassem rápido com aquilo. (Mais e mais escuro, o planeta só fazia compactuar com o que acontecia.)

Um escorpião, pacientemente estacionado sob o meu nariz, aguardando uma melhor oportunidade para o ataque, percebeu quando, em minha agonia, abri um olho, pronto a me julgar morto, e, presto, cravou-me seu ferrão risonho através da córnea, até atingir-me o cérebro, amalgamando-se aos meus pensamentos embaciados.

Simultaneamente a outros escorpiões que penetraram por entre minhas costelas e devoravam meu coração, tornei a ouvir o trem. Talvez fosse muito tarde, mas clamei por Ele, meu último recurso, com o que me restava de forças. Éramos, eu sabia, os dois, os desesperados. Apesar disso, ele partiu em minha auto-defesa, gritando cada vez mais alto, mais Alto, mais ALto, mais ALTo, interrompendo a . . . . . l . u . a . . . . . a epaços regulares dos vagões, e gritando tão ALTO que espantou os escorpiões, suplantou a morte e tudo foi acontecendo ao contrário. Como um filme exibido de trás para diante, eles foram retrocedendo, assustados, devolvendo o corpo de Eva, até que voltaram para a cabeça dela, e ela, à sua posição inicial no sofá. O trem terminou de passar. A normalidade vítrea de sempre.

Mas, em algum não-movimento irretorquível, o trem se atrasara, isso era consumado.


Na noite do dia que se seguiu, quando esses fatos, diluídos pela isenção com que os analisamos à distância, assemelhavam-se a não mais que um pesadelo conjunto, Eva, sem dar sequer mostras de parecer lembrar-se do que houve, aninhou-se em mim, carente de afeição e sexo, e, beijando-me avidamente, como em tempos irretornáveis sem a proteção segura da memória, tragou-me para dentro de si.

Nesse momento, o macho aprisionado em suas entranhas, a pele lubrificada pelo prazer retomado, ela permitiu-se um sorriso, que ilustrou o quarto.

Então, através dos seus dentes muito brancos, um escorpião assomou a cabeça, negro, e sorriu também.