quinta-feira, 5 de junho de 2008

Excursão. Quem vai?


Excursão para Yokohama no fim do ano: quem for tricolor que me siga...

PS: Gente do vestibular, especialmente o David, desculpem aí (viram que silepse de número bonita, "Gente, desculpem aí"?), mas eu tô esperando pra ver esse time jogar assim (apesar do tal do perYgor) desde 1976. Vcs nem eram nascidos ainda e não viram Rivelino, Gérson e Doval jogar. Então, tenham paciência, esperem a Libertadores acabar, que eu volto. Enquanto isso vou publicando um ou outro conto. Guardem suas perguntas e a gente se fala com o troféu na mão. Poeta tb é humano e tem seus dias de plebe...

E, por favor, comprem esses danados desses livros aí ao lado e o outro que vou lançar em breve, que eu preciso juntar dinheiro pra ir com o Flu ao Japão, hehe.

Pintou o campeão!


Que venha a LDU! Que venha Yokohama!

terça-feira, 13 de maio de 2008

Nas livrarias não? Por e-mail, então.

Recebi alguns e-mails de alunos que não encontram Os mortos estão no living nas livrarias. Quem desejar adquirir o livro pode também escrever à Flor&cultura Editores e solicitar o envio por snail-mail ("correio-lesma", aquele com carteiro, envelope, carimbo, tinta de caneta, selos... lembram? Ah, não deve ser do tempo de vcs... Mas caneta, pelo menos, vcs sabem o que é, né?).

O e-mail da editora: florecultura@gmail.com.

A queda


Uma pequena fruta vermelha e doce despenca de sua árvore-mãe, criança abandonando contra a vontade seu vício de útero. Na viagem que faz pelo abismo, pode-se negar o próprio momento. Há um lapso no universo, após o qual nada mais acontecerá da mesma maneira.

Um fiapo de luz, costurando os limites da tarde, impede que o mundo, por mais que se esforce, conclua a noite. Duas flores são primavera — pássaros, ainda, e folhas novas. Alguns objetos são idéias — vagas semelhanças com suas formas reais —, supridos de satisfação por sua singularidade. Algumas idéias — aproveitadas outras, anteriores — são insetos e podem ser vistas claramente por entre os plátanos e as begônias. Deus e suas invenções.

A pequena fruta, a meio-caminho do seu destino.

As cores pastosas do pôr do dia hesitam em desgarrar-se da paisagem. O cheiro e os sons da estação, misturados às abelhas e borboletas recentes num balé bucólico, permitem entrever a harmonia, antes da rigidez que logo se aproxima.

O sol já está completamente do outro lado do planeta mas, com o que lhe resta de veemência, permanece apegado, ensangüentado, a tudo que, por esse motivo, ainda tem alguma forma. É um anoitecer tão denso que, sobre ele, uma lua mal começada rasteja a duras penas, qual lesma que deixasse atrás de si restos pegajosos de nuvens.

A pequena fruta ainda não terminou sua trajetória, quando um pedaço da tarde não resiste mais e rasga-se, deixando-se tingir de escuro. Todas as coisas cedem, assim, uma parte de si. Em algum lugar, uma ave qualquer trina uma melodia triste, meio tom acima das quasicores.

O choque, finalmente.


O chão desloca-se vagarosamente

sob uma lagarta listrada.


sexta-feira, 18 de abril de 2008

(Parênteses para abaixo-assinado)

Pessoal, desculpem o mau jeito (com silepse de número e tudo), mas percam meio minuto aí e assinem o abaixo-assinado no link abaixo. Pra poupar tempo, explico: é que um sujeito (um desses artistas "mudernos") promoveu uma instalação em El Salvador, se não me engano, em que a "arte" se resumiu a manter um cão amarrado a uma parede até que ele (o cão) morresse de fome. Ao que consta, a tortura ao animal (o cão, não o "artista") durou vários dias. E agora, o sujeito, Guillermo Habacuc Vargas, foi classificado/convidado para a Bienal Centroamericana de Honduras 2008. O abaixo-assinado visa a boicotar a participação do cretino na Bienal Centroamericana e a demonstrar o asco de, até agora, 2.200.000 pessoas diante de manisfestações "artísticas" com tal nível de imbecilidade.

Quem não quiser assinar não assine. Quem tiver raiva desse tipo de coisa, bastam nome e e-mail.

Ah, o link: http://www.PetitionOnline.com/13031953/

Mas sabem o que é pior? Tem gente que acha que essa merda é arte mesmo...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Narciso indeciso


Para Oscar Gama


É que Narciso acha feio que não é espelho.

— Caetano Veloso


Era — já — a hora da lua: em breves semitons de azul e verde, ela surgiu, pingo de-prata, com o hálito antropófago da noite.

Ancorado no acaso da calçada, ele ficou procurando palavras para justificar sua permanência e tanto fantasiou que virou estrela.

Como tal, sentiu-se na obrigação de brilhar. E brilhou, brilhou, brilhou de tal forma que, por excesso de resplandecência, fez desaparecer os oceanos, a lua, os plantadores de rosas, as outras estrelas. Mas ficou querendo voltar a ser homem para receber homenagens, pois seria o único homem-estrela do mundo, de maneira que vestiu sua melhor roupa e desceu do céu.

No entanto, seu fulgor ofuscava as pessoas e elas ou fugiam dele, assustadas, ou o atacavam com o que encontrassem à mão: paus, pedras, edifícios. Decepcionado, ele tornou para o firmamento e jurou vingança: iria brilhar ainda mais. Afogaria todos em sua luz.

Foi quando a manhã floriu outro futuro e o sol confiscou-lhe a imaginação.

É — já — a hora da Lua. Ainda perdido no acaso da calçada, ele se ama, indeciso entre um tango argentino e um trago de aguardente, enquanto a noite pousa, desdentada, no quintal da sua cabeça.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Luz e sombra

Para Simone

Quando os olhos se enchem de um excesso de beleza, fechá-los é voluptuosidade. • Victor Hugo


Uma réstia de sombra penetrou por uma fresta da janela e exprimiu um protesto mudo contra a claridade do lugar. A um canto, em desalinho, o corpo da mulher exibia uma luz muito forte e pegajosa que, divulgada pelas paredes e espelhos, contagiava os objetos.

Algo imperceptível empurrou o mundo para outro minuto. As coisas envelheciam.

Um movimento mais brusco do sonho e eis que a mulher retoma o momento. Abre ligeiramente os olhos e — mistério impregnando o ambiente — os elementos se curvam diante da Beleza.

Subitamente, uma lágrima se desenrolou dos olhos dela. Aproveitando-se desse descuido, a réstia de sombra refletiu-se numa quina da parede, espalhando-se pelos rodapés. Uma flor e uma garrafa de vinho semivazia que brilhavam muito perceberam-lhe a intenção e tentaram impedi-la de prosseguir, mas, frágeis seres de matéria, foram logo absorvidas.

A mulher está feliz. Ei-la que ama e a quem amam. Havia muito que se destinara à emoção, e tanto que terminara por apossar-se da Luz. Assim é que, quando ama, brilha e se emite — ela, a claridade; a cor; o dia. (É nesses momentos que o seu braço pode abdicar do átomo e permanecer apenas gesto.)

Algum móvel, uma jóia e uma pequena peça de roupa tornaram-se, sem uma segunda chance, noturnos, como o avançar da sombra.

Nua sob os lençóis, ela se ocupa, de novo, em sonhar. Macia, esgueira-se, suave e mansa, onde a fantasia. O nácar de sua pele é a própria essência das coisas. O mundo plausível e presumível logo se desfaz e ela está inerente à plenitude.

Eis aqui a Lei: o mundo só é porque é luz e sombra. Há que se combaterem.

Um desenho a grafite, uma aliança de ouro, um poema e até pedaços perfumados de ar já haviam sido englobados pela sombra em sua fome de amplidão.

Ainda sob os lençóis, emaranhada em seu torpor, a mulher se move alguns centímetros e deixa a descoberto um seio plácido, provido de vida própria, que se encanta em acompanhar seu ritmo respiratório, subindo e descendo lentamente, dotando de sensualidade o todo ao seu redor.

A sombra estacou por alguns instantes. Havia que render-se, posto que momentaneamente, ao belo.

Nisso, porém, a mulher, munida então sua maior luminosidade, percebeu a falta dos objetos que a envolviam. Rolando sobre si mesma, abandonou os lençóis e deu-se conta de estar rodeada de sombras. Preocupou-a, entretanto, somente o amado, chegando e achando a casa às escuras. Poderia entender o que aconteceu? Saberia encontrá-la? Conseguiria ultrapassar a sombra — ele, tão frágil e desarmado, despido de sua luz?

Pensando assim, ela esforçou-se por ampliar-se e recuperou a flor e o poema. Nessa hora, porém, o ar, carregado de sem-cor e não suportando mais o peso da própria culpa, terminou de desabar..


O amado está à porta. Uma força de dentro para fora o impede de abri-la. Ele insiste. É quando a força de dentro de faz maior e, levando-o de roldão, a noite jorra sobre o mundo.

No interior do escuro, duas manchas luminosas resistem a ser possuídas, mas são a única luz do universo.